Caminhos da agrofloresta – Agricultores familiares buscam ampliar horizontes em intercâmbio
VoltarDezenove agricultoras e agricultores familiares que integram o projeto Restauração Florestal com Inclusão Produtiva, da Tabôa, participaram, no dia 16, de um intercâmbio na Fazenda Sucupira, em Valença (BA). A experiência oportunizou aos visitantes a observação de práticas de manejo implementadas que podem ser referência para a geração de renda para a agricultura familiar.
A escolha da Fazenda Sucupira para o intercâmbio teve relação direta com os objetivos da iniciativa da qual os agricultores participam. Segundo Laís Rossatto, coordenadora do projeto, a propriedade oferece um exemplo de agrofloresta economicamente viável, que possui um desenho parecido com o que é trabalhado no âmbito do projeto, com cacau, juçara e árvores nativas.
O aprendizado incluiu a observação dos diferentes talhões de agrofloresta, desde implantações recentes feitas há poucos meses, além de áreas com aproximadamente 5 anos e outras com 15 anos. “No intercâmbio, os agricultores viram de perto a importância de diversificar as áreas, de plantar café, as árvores nativas da Mata Atlântica que são madeiráveis, e a juçara. Também puderam ver como funciona a cobertura do solo, o manejo das roçadas, o acompanhamento do dossel das árvores, quando é o momento de tirar uma planta e quando é o momento de entrar mais luz. Ou seja, presenciaram uma agrofloresta com diferentes estágios, pois, no projeto, as árvores que os agricultores plantaram ainda estão todas novas”, conta Laís.
Uma experiência que ensina pelo exemplo
A agricultora familiar Maria Andrelice, conhecida como Dona Del, do Assentamento Dandara dos Palmares, em Camamu (BA), destaca que a principal contribuição da atividade foi ampliar o conhecimento para ajudar na tomada de decisões. “Foi importante para buscar informações e conhecimento, para praticarmos da forma que a gente consiga em nossa unidade produtiva”, afirma. Ela também destaca aprendizados relacionados ao planejamento.
“Eu aprendi que, na unidade produtiva, a gente precisa fazer estudo de viabilidade na área, saber quais plantas vamos plantar e observar as matrizes que estão saudáveis. As que dão problema podem ser suprimidas e aproveitadas para outras coisas, como ficar para matéria orgânica, ou para fazer móveis, ou cercas”, explica.
Para Gean Carlos, agricultor no Assentamento São João, em Ibirapitanga (BA), o que chamou atenção foi como produzir cacau, juçara e frutíferas em uma só área, gerando boa produtividade.
“A maneira como foi implantado na Fazendo Sucupira, a gente vê que tem condições de ser implantado em outras áreas. Aprendi que em meu lote de cacau, eu posso plantar juçara e frutíferas nativas, e foi surpreendente ver o desenvolvimento. Facilita no manejo, facilita na colheita, e isso gera renda”, conta.
Já o agricultor Vicente Brasil, da Associação Ilha Bela, saiu do município de Santa Luzia (BA), para participar dessa experiência que abriu possibilidades: ver uma agrofloresta com café, fez surgir uma nova perspectiva dentro de sua trajetória no campo.
“Achei algo surreal, porque jamais estudei ou pensei em plantar café. Agora consigo ver uma possibilidade. Já tinha ouvido falar e assistido a vídeos sobre café agroecológico, mas, na prática, foi a primeira vez”, relata.
Conhecer uma experiência consolidada também ajudou o agricultor a perceber que soluções simples, utilizando os recursos disponíveis na própria propriedade, podem fazer a diferença. “Desmistifiquei que, mesmo em um ambiente que aparenta ter recurso, nem tudo se compra. Usar o que se tem na propriedade, adianta o processo de manejo e fica bonito tanto quanto.”
A possibilidade de aprender vendo o exemplo de uma fazenda com um SAF consolidado foi o diferencial dessa atividade. “O intercâmbio é uma modalidade de aprendizagem muito importante. Fazemos oficinas, rodas de conversas, atividades práticas, mas conhecer uma área que já funciona trabalhando com sistemas agroflorestais, ver que as pessoas estão fazendo aquilo e que é viável, isso é muito assertivo”, comenta Laís.
O intercâmbio e outras estratégias de compartilhamento de conhecimento entre famílias agricultoras integram a metodologia do projeto Restauração Florestal com Inclusão Produtiva, que articula três frentes: a oferta de crédito e o acompanhamento técnico rural (Ater), realizados pela Tabôa, para apoiar a implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) biodiversos e produtivos e a restauração ecológica das Áreas de Preservação Permanente (APPs); e o pagamento por Serviços Ambientais (PSA) às agricultoras e aos agricultores pela recuperação de áreas degradadas.
O projeto conta com o apoio da Fundação Arymax, Instituto humanize, Fundo Pranay e Instituto Clima e Sociedade (iCS). Até 2029, a expectativa é recuperar 30 hectares no sul da Bahia, incluindo um total de 4,5ha de Área de Proteção Permanente.
Fotos: Acervo Tabôa | Equipe do projeto de Restauração Florestal e Inclusão Produtiva.