Créditos de empoderamento feminino viabilizam recursos para negócios coletivos em assentamentos rurais no Sul da Bahia
VoltarPara aproveitar cada fruta que cresce na unidade produtiva, um grupo de mulheres do Projeto de Assentamento (PA) Ressurreição, em Ilhéus (BA), aprendeu a transformá-las em polpa, iniciando um negócio coletivo. Foi assim que cupuaçu, cacau e acerola colhidos por suas mãos foram processados na despolpadeira, ensacados e congelados para serem comercializados, inicialmente, para vizinhos e em feiras livres. Todo esse processo foi resultado do aprendizado prático para a implementação do modelo de negócio escolhido por elas.
“O projeto surgiu e nós agarramos porque aqui perdemos muitas frutas, como cupuaçu, cajá, acerola e graviola. Então, a gente vai fazendo as polpas para vender, para ter uma renda extra. Eu pude ver também a união das mulheres que estão colaborando com cada etapa”, celebra a agricultora Sirley Santos, que participou do curso de despolpa, ocorrido nos dias 25 de setembro e 2 de outubro.
Para Raimunda Lourenço dos Santos, ter a despolpadeira é uma realização.
“Era um sonho que eu tinha, da gente realizar isso aqui no PA Ressurreição, de ter uma despolpadeira. Para as mulheres da comunidade, é muito importante, porque vamos trabalhar em conjunto e botar o trabalho em ação”, conta.
O grupo acessou R$ 13.750 mil para estruturar seu empreendimento, com despolpadeira, freezer, seladora, e para realizar adequações necessárias no espaço. Esses recursos vêm da geração e comercialização de créditos de empoderamento feminino pelo Padrão W+, cujo processo de mensuração, venda e distribuição dos créditos foi conduzido pela desenvolvedora de impacto ERA Brazil, com o apoio do Instituto Arapyaú e da Tabôa.
Desenvolvida pela Women Organizing for Change in Agriculture and Natural Resource Management (WOCAN), a metodologia de geração de créditos de empoderamento feminino pelo Padrão W+ depende da mensuração de indicadores que avaliam as mudanças na vida das mulheres participantes, com base em dados coletados nos projetos e nas comunidades envolvidas. No caso das comunidades alcançadas no sul da Bahia, os créditos foram gerados a partir dos resultados obtidos por agricultoras familiares alcançadas pela Tabôa.
Os investimentos nas comunidades alcançaram mais três negócios coletivos nos assentamentos Nova Vitória e Demétrio Costa, também em Ilhéus, e Nova Vida, em Itacaré. A Tabôa também foi responsável por acompanhar e orientar a implementação do projeto no campo.
Karine Araújo, coordenadora de crédito rural na Tabôa, conta que o processo foi iniciado em 2023, com realização de entrevistas em comunidades alcançadas pela instituição, seguida da formação de grupos de mulheres nos quatro assentamentos e da criação e implementação dos negócios coletivos com o recurso recebido.
“Com a metodologia do Instituto Era, reunimos as mulheres interessadas e as escutamos sobre qual o tipo de projeto queriam desenvolver. Elaboramos junto com elas um modelo de negócio para começarem a entender como funcionaria a gestão e outros aspectos. Esse processo aconteceu nas quatro comunidades”, explica Karine.
As mulheres que participam no Assentamento Nova Vida decidiram construir um viveiro para a produção de mudas de cacau, frutíferas e espécies ornamentais. O negócio já vem gerando recursos a partir da comercialização das mudas para outras(os) agricultoras(es).
Outro viveiro, com objetivo produtivo semelhante, foi implantado no Assentamento Demétrio Costa e está em estruturação. E no PA Nova Vitória, as mulheres optaram por adquirir uma desidratadora para a produção e venda de frutas desidratadas como jenipapo, banana, goiaba, cupuaçu e jaca, iniciativa que também está sendo estruturada.
As aulas sobre beneficiamento e manipulação dos alimentos ficaram por conta do IF Baiano – Campus Uruçuca. “O IF Baiano entrou com sua atividade extensionista, através de cursos de formação inicial e continuada, que são os nossos cursos FIC, em que proporcionamos capacitações em diversas áreas. E uma delas é essa aqui, de preparar a comunidade para ter boas práticas de fabricação e processamento de frutas e derivados”, comenta a professora Julianna Torres.
A iniciativa mostra como o conhecimento pode se transformar em renda e mais autonomia para as 65 mulheres alcançadas, a partir do apoio à organização coletiva e do reconhecimento de seus trabalhos para o fortalecimento do território.
Fotos: Acervo Tabôa | Tacila Mendes