Prosa Comunitária debate mudanças climáticas e desigualdades em Serra Grande
VoltarComo as mudanças climáticas evidenciam desigualdades e vulnerabilizam territórios e comunidades? Esta foi a pergunta que orientou as reflexões durante a edição de junho da Prosa Comunitária, uma iniciativa que busca fomentar o debate público sobre temas relevantes para o desenvolvimento territorial em Serra Grande (Uruçuca, Bahia). Promovido pela Tabôa, o encontro reuniu moradores, integrantes de projetos, coletivos e organizações da sociedade civil, que discutiram desafios e caminhos para o enfrentamento da emergência climática.
A roda de conversa foi mediada por Joselita Machado, militante de base comunitária, e Robson Bitencourt, gerente de Desenvolvimento Territorial da Tabôa. Durante a atividade, Joselita destacou como os efeitos das mudanças climáticas se relacionam diretamente com desigualdades historicamente construídas. “As casas do nosso bairro (Bairro Novo) são frágeis, de telhados antigos, e muitas moradias próximas aos riachos, com risco de alagamentos e perda de seus bens. À noite, quando dormimos em tempos de vento e chuva forte, nos preocupamos, pensando nos mais vulneráveis”, compartilhou.
“A prosa foi um momento de refletir que, de um jeito ou de outro, essa população mais vulnerável está sempre muito mais exposta do que as outras populações. É esse ponto que a gente tem que começar a trabalhar já, pensar políticas públicas para habitação e ordenamento urbano”, avalia.
A percepção de que as mudanças climáticas não afetam todas as pessoas da mesma forma foi corroborada pelos participantes do encontro, com a partilha de experiências vivenciadas no dia a dia que evidenciam a interseccionalidade entre clima, gênero, raça, condição socioeconômica, território. Dentre os desafios compartilhados, estiveram precariedade de moradia, desigualdade econômica e outros problemas estruturais enfrentados por famílias em situação de vulnerabilidade social, além do processo de gentrificação observado no território e situações associadas ao racismo ambiental. A projeção de maior seca em 2026 para o Nordeste devido aos impactos do fenômeno conhecido como El Niño, como apontam institutos e organizações relacionadas ao clima, também foi trazida pelos participantes, destacando a importância de se implementar medidas de adaptação climática nas comunidades.
Para além dos desafios vividos, os territórios também produzem soluções e apontam rumos. E, nesse sentido, a Prosa buscou fomentar o mapeamento coletivo de caminhos para construção de maior resiliência climática nas comunidades. As diversas ideias surgidas passam por proteger a sociobiodiversidade do território e entorno – cuidando de áreas de preservação ambiental, como o Parque Estadual da Serra do Conduru e a APA Serra Grande–Itacaré, e promovendo maior equidade para os diversos grupos populacionais que o habitam. Um ponto ressaltado pelo grupo é a importância de fortalecer instâncias e mecanismos de participação social e governança comunitária, como assembleias populares periódicas e criação de grupos de trabalho voltados para o fortalecimento da gestão participativa no território.
Para Robson Bitencourt, gerente de Desenvolvimento Territorial de Serra Grande e Entorno da Tabôa, fortalecer a participação social é mesmo um passo essencial para que as comunidades ampliem sua capacidade de incidência e contribuam para a construção de políticas públicas mais conectadas às necessidades do território.
“Acreditamos que as estratégias para enfrentar os desafios climáticos também passam pelo fortalecimento da organização comunitária, pela valorização dos saberes locais e pela construção de processos de governança participativa. Quando as pessoas se reconhecem como parte da solução, o território se fortalece e amplia sua capacidade de responder aos desafios do presente e do futuro”, explica.
Como desdobramento da Prosa, foi articulado um grupo de pessoas interessadas em aprofundar esse debate e dar continuidade à construção coletiva de soluções para o território. Em julho, a Tabôa promoverá um novo encontro com esse grupo para avançar no diálogo, aprofundar as reflexões e construir propostas de ações coletivas voltadas ao fortalecimento da resiliência climática local.
O diálogo como caminho | As Prosas Comunitárias são espaços de diálogo promovidos pela Tabôa Fortalecimento Comunitário que buscam estimular reflexões, trocas de experiências e construção coletiva de ações em temas relevantes para o desenvolvimento justo e sustentável do território. Os encontros reúnem moradores, lideranças, organizações e iniciativas locais, fortalecendo redes de colaboração e participação social.